15 de janeiro de 2016

Resenha | O Vilarejo - Raphael Montes


Autor: Raphael Montes

Número de páginas: 96

Ano: 2015

Editora: Suma de Letras

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Sinopse: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

 

O vilarejo, se existiu em algum momento, sumiu do mapa. Os cimérios desapareceram como se a terra os tivesse engolido.

Raphael Montes se insere na própria história na pele de um tradutor que acaba pondo as mãos em três cadernos ilustrados de Elfrida Pimminstoffer, uma misteriosa senhora de cento e dois anos que havia falecido meses antes.

Os cadernos foram escritos em cimério, uma língua morta e desconhecida, e traziam também ilustrações medonhas. Raphael encontra na capa dos cadernos o nome de Peter Binsfeld, um demonologista responsável pela classificação dos demônios, onde ele dizia que cada um deles era responsável por invocar um pecado capital nas pessoas.

Intrigado e curioso para descobrir o que estava escrito nos cadernos, Raphael entra em contato com Uzzi-Tuzii, um catedrático estudioso de cimério.

Assim que vê os cadernos, o professor Uzzi Tuzii recusa-se a traduzir os textos e recomenda que Raphael os descarte. Diante da insistência de Raphael, o professor fornece um dicionário de cimério. E é aí que Raphael começa a traduzir os textos sozinho... todas as histórias se passam em um mesmo vilarejo, e o que ele descobre é perturbador!

Gula → Belzebu – Banquete para Anatole

Nesse conto nós conhecemos Felika, uma mulher que está desesperada com a situação em que ela e seus filhos se encontram. A guerra assolou o vilarejo em que vivem, bloqueando estradas e fazendo com que não haja meio de carregamentos de comida chegarem ao vilarejo.

Anatole, marido de Felika, sai para tentar caçar alguma coisa para alimentar a família por algum tempo. Mas ele passa muito tempo fora e Felika teme que ele não volte, sendo assim, tenta prolongar o pouco estoque de comida que possui, fornecendo poções cada vez menores às crianças e consumindo ela mesma quase nada.

Só que Anatole volta e traz consigo alguns animais que conseguiu na floresta, mas ao entrar em casa o que ele descobre é aterrorizante.

Pela janela, encara Felika com os olhos vazios, um negrume aterrador no lugar onde deveriam estar os glóbulos oculares.

Inveja → Leviathan – As irmãs Vália, Velma e Vonda

Vonda e Velma são gêmeas e têm treze anos. Vália, a irmã mais velha, tem dezessete e namora Krieger. Todos os domingos Vália leva as irmãs ao descampado do vilarejo para que elas possam brincar com a amiga Jekaterina. Vália aproveita também para passar um tempo a sós com Krieger.

Vonda e Velma, apesar de gêmeas, são muito diferentes na personalidade. Velma gosta de impor suas vontades, já Vonda é tímida e costuma acatar tudo o que a irmã lhe diz. Além disso, nutre um amor platônico por Krieger.

Vonda, Velma e Jekaterina gostam de brincar de escrever histórias sobre as pessoas do vilarejo e, quando Velma propõe que comecem a escrever uma história sobre Krieger, Vonda começa a imaginar como seria essa história…só que Vonda não se contenta em deixar a história só na imaginação, o que culmina em um desfecho trágico e perverso.

Tudo acontece em segundos. Krieger abre os olhos e move o braço, dando-se conta da desgraça iminente. Seu olhar apavorado encontra o de Vonda.

Soberba → Lúcifer – O negro caolho

Em uma manhã de inverno, um negro forasteiro chega ao vilarejo e quase é morto por Ivan, um dos moradores. Helga, uma outra moradora do vilarejo, os impede e acaba levando o negro para sua casa, onde ele passa a trabalhar para ela. Helga descobre que o negro se chama Mobuto e passa a ensinar-lhe a língua local. Descobre também que ele foi parar no vilarejo em busca de suas duas filhas que foram raptadas.

Com o passar do tempo, Mobuto, que sempre trabalhou de bom grado – mesmo a troco de nada – começa a dar sinais de rebeldia, não fazendo suas tarefas direito. Aquela situação começa a irritar Helga, que passa a tratá-lo muito mal, prendendo-o no porão e batendo nele com palmatórias.

Mas chega a hora em que Mobuto cansa das constantes agressões e humilhações. Helga deveria ter parado antes que fosse tarde demais!

Você não presta pra nada — diz sra. Helga. — Não agradece nem por um instante pelo que fiz por você! Sabe o que eu esperava? Respeito! Dedicação! Trabalhar decentemente é o mínimo! Mas não! Nem isso você faz!

Luxúria → Asmodeus – A doce Jekaterina

Mikhail está na sala de espera de um hospital e, perdido em devaneios, deixa-se levar de volta ao tempo em que era mais jovem. Ele era um homem que gostava dos prazeres da carne e costumava ficar mais atraído por mulheres corpulentas. Quando vê Jekaterina, a filha do vizinho, saindo para a escola, ele começa a reparar nas formas arredondadas do corpo da menina.

Ele passa a perseguir Jekaterina por um tempo, mas sem fazer nada com a menina. Até que chega o dia em que ele a aborda, a amordaça e a leva para o seu porão. Neste dia começam os abusos, que duram anos e anos. Até que Jekaterina vai embora.

Alguns anos depois, Jekaterina volta e bate na porta de Mikhail. Ela tem um presente pra ele, um presente que ele não deveria ter aceitado.

Só que as coisas começaram a acontecer... As manchas pelo corpo. A perda de sensações. Os braços atrofiados. A dolorosa deformação nos dedos. A pele que se enrugava com velocidade, como se vermes carcomessem suas carnes.

Preguiça → Belphegor – A verdadeira história de Ivan, o ferreiro

Ivan, o ferreiro do vilarejo, construiu sua reputação em cima de mentiras. A verdade é que ele era um preguiçoso de marca maior, mas sempre encontrou um jeito de fazer com que as pessoas achassem que era ele quem fazia todos os trabalhos.

Só que na verdade quem fazia os trabalhos de Ivan eram suas escravas, que ele tratava como se fossem bichos, chegando, inclusive, a trancá-las em jaulas.

Certa noite, alguém invade a casa. Esse alguém sabe da existência das meninas e quer libertá-las. Será que Ivan vai permitir que as responsáveis por manter sua farsa de pé escapem? E qual será a consequência disso tudo para Ivan?

A ideia de seguir para a cidade o abandona com a mesma rapidez com que surge. A possibilidade de passar dias caminhando na neve, dormindo no solo gélido da floresta, chega a lhe causar náuseas. Se for para morrer, que morra na cama, aquecido pela brasa que arde na lareira.

Ganância → Mammon – O porquinho de porcelana da sra. Branka

Latasha é uma menina que ficou órfã muito cedo. Sua mãe não sobreviveu ao parto e seu pai morreu na guerra. Latasha passa a viver então com sua avó, Branka.

A sra. Branka cuida da neta com prazer, mas com o passar dos anos a mulher começa a ficar cada vez mais avarenta. Tudo culpa do contador de sua avó, um velho de aparência estranha que diz para sra. Branka que ela tem que economizar mais e mais, tem que comprar menos carne e tem que tirar Latasha da escola para que a menina possa ficar em casa ajudando nas costuras para aumentar os ganhos.

A sra. Branka acata tudo, tira Latasha da escola e passa a depositar cada centavo que ganha em um porco de porcelana que ganhou do contador. Certo dia o porco se espatifa no chão e, para surpresa da sra. Branka, não há um vintém sequer dentro dele. Ela logo acusa Latasha e um acidente acaba acontecendo.

— Há os que não dão importância ao dinheiro. Todos uns paspalhos — diz ela. — O que você veste é dinheiro. O que você come é dinheiro. Onde você dorme é dinheiro. Tudo, minha querida, tudo é dinheiro.

Ira → Satan – Um homem de muitos nomes

Anatole deixou sua esposa Felika e seus dois filhos no vilarejo e partiu em busca de comida. Os suprimentos que eles tinham em casa logo acabariam…se isso acontecesse sua família e ele morreriam de fome.

Ele vai para a floresta para tentar caçar alguns bichos, mas os dias vão passando e Anatole não consegue absolutamente nada. Desesperado. ele está quase desistindo quando encontra um homem misterioso. Eles trocam algumas palavras e o homem acaba dando para Anatole os bichos que tinha conseguido caçar.

Anatole volta correndo para o vilarejo, mas ao entrar em casa o cenário que encontra é tenebroso. Aturdido, não consegue acreditar no que os seus olhos veem, mas aquilo é real.

Anatole ainda vai descobrir a razão de todas as coisas horríveis que aconteceram no vilarejo.


— Não acredito em Deus, na verdade. Também não acredito no diabo.

— Suponho que não precisem que as pessoas acreditem neles para existirem.

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Tenho que confessar que O Vilarejo não é nada daquilo que eu estava pensando. Como se trata de um livro com histórias do capiroto, eu estava esperando vômito verde e cabeças girando, mas não é nada disso!

O terror presente nos contos é muito mais apavorante porque é real, não tem nada de sobrenatural. Não tem objetos voando, luzes piscando, nada disso. São pessoas fazendo maldades em sua mais pura e absoluta essência.

A escrita do Raphael é ótima e eu fiquei de boca aberta com o final de alguns contos. Os contos que mais me impressionaram foram o da gula, o da inveja e o da ganância. Raphael conduz todos os contos de maneira magistral, mas o final desses três contos em particular é perturbador, mas ótimo.

Só não gostei muito dos contos que retratavam a soberba e a luxúria, achei o ritmo deles inferior aos outros, assim como o desfecho.

Por mais que esteja escrito que os contos podem ser lidos em qualquer ordem, recomendo que a leitura seja feita na ordem em que eles se encontram, pois eles vão se conectando de uma maneira muito inteligente e os personagens vão se repetindo.

O posfácio do livro é um show à parte! Achei aquilo genial e fiquei literalmente assim → 😮 Tenho que elogiar também o excelente trabalho gráfico desse livro. As ilustrações presentes nos contos nos levam ainda mais para dentro do vilarejo.

Assim que terminei a leitura desse livro tive certeza que lerei tudo o que Raphael Montes escrever. Sabiam que o livro Dias Perfeitos será lançado nos Estados Unidos e que a crítica de lá está comparando-o com Garota Exemplar, de Gillian Flynn, e com O Colecionador, de John Fowles?

Indico muito a leitura de O Vilarejo, vocês vão se surpreender!

Observação: Conteúdo postado quando a plataforma do blog ainda era WordPress. Com a mudança, todos os comentários foram perdidos.

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