26 de março de 2016

Resenha | Ratos - Gordon Reece


Autor: Gordon Reece

Número de páginas: 240

Ano: 2011

Editora: Intrínseca

Skoob: AQUI
Sinopse: Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas.

Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade.

Confiantes de que o pesadelo acabou elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina.

Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.

 

Talvez a verdade seja que todos temos um limite – até mesmo os ratos -, e quando ele é ultrapassado algo se transforma dentro de nós.

Shelley era uma adolescente comum. Ela tinha três amigas inseparáveis: Teresa, Emma e Jane, e juntas elas formavam as JETS. Elas se conheciam desde crianças e parecia que seriam amigas para sempre. Porém, aos catorze anos, Teresa, Emma e Jane começaram a mudar e passaram a apresentar um comportamento muito agressivo. Shelley continuou sendo a mesma menina doce, que gostava de leitura e de música clássica. As três meninas, então, começam a tratar Shelley com muita hostilidade.

No começo eram apenas olhares de repulsa e insultos verbais. Depois começaram as pegadinhas, como quando colocam um pardal morto dentro do tênis de Shelley. As agressões físicas começaram com empurrões, rasteiras e puxões de cabelo. Mas certo dia as três meninas vão longe demais e ateiam fogo nos cabelos de Shelley.

Eu não tinha outros amigos – nunca precisei ter outros amigos. Sempre tive Teresa, Emma e Jane. Nós éramos melhores amigas desde os nove anos. Nós nos amávamos como irmãs. Nós éramos as JETS. Eu não imaginava o quanto os sentimentos delas por mim se tornaram nocivos. E não imaginava o perigo que corria.

Em Ratos nós também conhecemos Elizabeth, mãe de Shelley. No passado, Elizabeth era uma promissora advogada que tinha um brilhante futuro pela frente. Quatro anos após o nascimento de Shelley, Elizabeth abandonou a profissão para fazer a vontade do marido, pois este queria que ela ficasse em casa cuidando da filha. Depois de ser trocada por uma mulher muitos anos mais jovem que ela, Elizabeth passa por maus bocados para se recolocar no mercado, pois seu conhecimento jurídico estava completamente defasado. Tudo o que ela consegue é o emprego de assistente jurídica, trabalho no qual ganhava muito mal e no qual era explorada pelos patrões.

Nem a escola e nem a polícia conseguem provas de que as três garotas foram as responsáveis pelo ataque à Shelley. Traumatizada, a menina decide deixar de frequentar as aulas e passa a ter aulas em casa, com tutores. Na mesma época em que Shelley sofre o ataque, Elizabeth recebe o dinheiro do divórcio. Com esse dinheiro ela compra o Chalé Madressilva, uma casa muito afastada da cidade, do jeito que ambas queriam.

Docilmente aceitamos, submetemo-nos, calamo-nos, não dissemos nada, não fizemos nada, porque a mansa submissão é tudo o que os ratos conhecem.

A vida das duas no Chalé Madressilva estava indo bem. Shelley recebia os tutores pela manhã enquanto Elizabeth estava no trabalho. Quando a mãe retornava, elas conversavam sobre como foi o dia e depois tocavam juntas, Elizabeth ao piano e Shelley na flauta.

Na noite em que Shelley completa dezesseis anos, após a agradável rotina de mãe e filha, um estranho invade a casa. Aparentemente drogado, ele amarra as duas e sai em busca de algo valioso para roubar.

Quando um gato invade a toca de um rato, ele não vai embora sem fazer mal nenhum.

Elas poderiam obedecer. Poderiam aceitar, abaixar a cabeça, afinal, isso era tudo o que elas haviam feito na vida. Porém, como a própria sinopse do livro diz, até mesmo os ratos têm um limite. E aquela fatídica noite mudaria para sempre a vida de Shelley e Elizabeth.

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Após ler um comentário sobre Ratos em um dos grupos de leitura que participo no Facebook, fui pesquisar um pouco mais sobre o livro. A originalidade da história e a proposta da mesma me conquistaram. Comprei o livro por míseros R$3,60 no Submarino e até comecei a ler quando o livro chegou, mas acabei deixando ele de lado. Como eu mencionei, a história e a proposta de Ratos são muito originais, e foi isso que me fez ir até o final do livro, pois, ao longo da leitura, achei que faltou profundidade em diversos aspectos.

Achei Shelley muito infantil. Após o episódio do roubo ela até melhora, mas oscila muito entre a infantilidade e o comportamento normal de uma adolescente de dezesseis anos. Após o ocorrido, são diversos os momentos em que ela age de maneira forçada, beirando a psicopatia. Elizabeth também deixa muito a desejar. Entendo que o autor quis construir personagens submissas e passíveis, mas a passividade de Elizabeth me irritou em determinados momentos. Como que colocam fogo na filha dela e ela não faz absolutamente nada? Eu não posso comentar muito porque eu teria que soltar diversos spoilers, mas se ela teve cabeça pra conseguir se safar de uma – na verdade duas – situações que ocorrem no livro, como ela não conseguiu encontrar uma saída para as três garotas serem punidas?

Gordon quis fazer uma abordagem mais psicológica, quis mostrar o que as pessoas são capazes de aguentar e até quando elas são capazes de aguentar sem revidar. Mas as duas personagens principais são muito rasas e não achei que ele explorou todas as possibilidades que a história possuía. Quando cheguei ao final do livro, li a orelha onde fica a breve biografia do autor e de lá pude tirar diversas conclusões. Antes de escrever Ratos, Gordon escreveu diversas Graphic Novels e livros infantis. Livros infantis... Shelley é isso, uma personagem de livro infantil com algumas nuances mais sombrias.

Achei interessante o nome do livro e o significado que ele tem na história. São diversas as passagens onde o termo “ratos” é abordado de maneira bem pertinente. O livro é narrado por Shelley e os capítulos são curtos. A escrita do autor é bem enxuta e fluida. Sobre a capa, acho bem feia! Ela é até interessante, pois é vazada formando uma toca de rato mesmo e o título do livro fica na orelha, mas acho que uma outra capa faria o livro ser até mais vendável.

Uma outra coisa que me desagradou foi o final. Esperava uma coisa mais impactante, mas achei tudo bem bobinho. O livro não é ruim, mas está longe de ser bom. Para mim, Gordon tinha ouro nas mãos, uma premissa totalmente instigante e original que, se bem explorada, poderia render um grande livro. Como eu sempre gosto de frisar, não é porque eu não curti um livro que vou falar que não o recomendo. As pessoas são diferentes e têm gostos diferentes. Esse livro tem uma nota boa no Skoob, mas não funcionou comigo. Porém, com vocês ele pode funcionar perfeitamente bem! 😉

Observação: Conteúdo postado quando a plataforma do blog ainda era WordPress. Com a mudança, todos os comentários foram perdidos.

Um comentário

  1. Eu li "ratos" não faz muito tempo, e sua opinião é basicamente igual a minha, ou pelo menos a mais parecida que encontrei entre todas as resenhas sobre o livro. Achei Shelley extremamente infantil e isso me irritou muito durante a leitura, e o livro deu a entender que ela era muito relaxada e achava isso completamente normal. Fora que algumas atitudes de Elizabeth me aborreceram também.
    Sonho Inverossímil

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