24 de setembro de 2016

Resenha | Belgravia - Julian Fellowes


Livro cedido em parceria pontual com a editora

Autor: Julian Fellowes

Número de páginas: 432

Ano: 2016

Editora: Intrínseca

Skoob: AQUI
Sinopse: Ambientada nos anos 1840, quando os altos escalões da sociedade londrina começam a conviver com a classe industrial emergente, e com um riquíssimo rol de personagens, a saga de Belgravia tem início na véspera da Batalha de Waterloo, em junho de 1815, no lendário baile oferecido em Bruxelas pela duquesa de Richmond em homenagem ao duque de Wellington.

Pouco antes de uma da manhã, os convidados são surpreendidos pela notícia de que Napoleão invadiu o país. O duque de Wellington precisa partir imediatamente com suas tropas. Muitos morrerão no campo de batalha ainda vestidos com os uniformes de gala.

No baile estão James e Anne Trenchard, um casal que fez fortuna com o comércio. Sua bela filha, Sophia, encanta os olhos de Edmund Bellasis, o herdeiro de uma das famílias mais proeminentes da Bretanha. Um único acontecimento nessa noite afetará drasticamente a vida de todos os envolvidos.

Passados vinte e cinco anos, quando as duas famílias estão instaladas no recente bairro de Belgravia, as consequências daquele terrível episódio ainda são marcantes, e ficarão cada vez mais enredadas na intrincada teia de fofocas e intrigas que fervilham no interior das mansões da Belgrave Square.

 

Esta é uma história sobre pessoas que viveram há dois séculos e, ainda assim, muito do que elas desejaram, muito do que se ressentiam e as paixões arrebatadoras em seus corações, eram bastante parecidos com os dramas que vivemos agora, em nosso tempo...

Bruxelas, junho de 1815, às vésperas da Batalha de Waterloo, conhecemos a família Trenchard, composta por James, o patriarca, Anne, sua esposa, Sophia, a filha mais velha e Oliver, o mais novo. James, filho de um comerciante, viu sua vida mudar drasticamente quando conquistou a confiança do importante duque de Wellington e passou a ser o fornecedor de suprimentos do Exército naqueles tempos difíceis. Esta tarefa fez com que ele ascendesse financeiramente, mas não socialmente. Ele era um emergente; tinha dinheiro, mas não tinha prestígio. E prestígio era o que ele mais queria.

Sophia parecia ter herdado essa ambição de ser socialmente reconhecida. Então, quando a menina consegue convites para o baile da duquesa de Richmond, James vê no evento uma grande chance de socializar com as pessoas mais importantes da sociedade naquela época. Sophia, que está interessada em Edmund Bellasis, sobrinho da duquesa de Richmond, vê no evento a oportunidade de ficar perto do amado e de ser aceita como uma possível pretendente do mesmo.

Anne era a única que via os males dessa ambição. Para ela não importava ser reconhecida. O caminho para chegarem onde estavam tinha sido árduo, e só o fato de terem uma vida confortável já bastava para ela. Ela inclusive tenta desencorajar a filha em relação ao rapaz, afinal, o que um lorde poderia querer com a filha de James Trenchard?

Havia momentos em que Anne Trenchard ficava irritada com os filhos. Eles sabiam muito pouco da vida, apesar do ar de superioridade. Tinham sido muito mimados desde a infância, estragados pelo pai, até que ambos tomaram a própria boa sorte como garantida e mal pensavam nela. Eles não sabiam nada sobre a jornada que seus pais haviam empreendido para atingir a posição atual, enquanto a mãe se lembrava de cada mínimo passo em terreno pedregoso.

Muitas pessoas estranham a presença dos Trenchard no dia do evento, mas isso não parece perturbar James e Sophia, eles estão em êxtase. Anne, por sua vez, não poderia estar se sentindo mais desconfortável.

O luxuoso baile estava sendo um sucesso, até que o avanço de Napoleão e sua tropa interrompe os festejos. Aquela seria a última noite de muitos pais, filhos e maridos. E mesmo que os Trenchard ainda não soubessem, aquela também seria a noite que mudaria suas vidas, para o bem e para o mal.

Londres, 1841, mais de vinte anos após a Batalha de Waterloo. James Trenchard agora é um importante empreendedor e investiu seu dinheiro nas grandes obras da Londres do século XIX. Junto com os irmãos Cubitt, ele participou da construção de muitos lugares importantes e imponentes, vendo sua fortuna crescer exponencialmente. E entre estes projetos estava a famosa Belgravia, berço da aristocracia londrina.

James não é mais persona non grata, todavia, ainda não alcançou o patamar que gostaria. Mas uma desobediência de Anne traz à tona um segredo guardado a sete chaves, ameaçando destruir o pouco respeito que ele conseguiu.

James Trenchard temia o dia seguinte. E o outro também, aliás. Ele temia todo o tempo que levaria até o escândalo explodir. Era como um relógio avançando lentamente em direção ao dia do juízo, concluiu ele, deitado na cama, olhando para a cornija branca acima. Era como a granada de um soldado esperando para estourar. Não admirava que ele não conseguisse dormir. Estava deitado havia uma hora, ouvindo o silêncio. Sabia que Anne também não estava dormindo. Deitada ao seu lado, de costas para ele, parecia rígida. Ele podia sentir a tensão dela.

Em uma época em que o prestígio era herdado, e não conquistado, acompanharemos os desdobramentos de uma rede de segredos e intrigas que percorrerão toda Belgravia, e que transformarão para sempre a vida de todos os envolvidos.

Pedirei para o Sr. Smyth, da Hoare, calcular e informar sua parte na herança de seu pai, minha querida, e, no futuro, você vai se comunicar com ele, e não comigo. A partir de agora, não a reconheço mais. Está à deriva e deve conduzir seu próprio barco. E você — ela se virou para Caroline, o ódio reluzindo em seus olhos — roubou minha filha e arruinou minha vida. Eu a amaldiçoo por isso.

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Belgravia foi uma leitura excelente! Como vocês já estão cansados de saber, eu sou apaixonada pelo gênero, sendo assim, quando a Intrínseca me convidou para a parceria pontual, eu não pensei duas vezes. Mas o que eu encontrei nas quatrocentas e trinta e duas páginas de Belgravia vai além. Para começar, ele é um romance histórico, não de época como eu pensei inicialmente, e sim, há diferenças. A preocupação que Julian Fellowes teve de inserir datas, fatos históricos e até mesmo personalidades da época, fez com que o livro se tornasse uma leitura extremamente crível e interessante.

O autor é o criador da série Downtown Abbey, e aqueles que tiveram a oportunidade de assistir ao menos um episódio da aclamada série poderão ter uma noção da densidade histórica da narrativa de Fellowes. São mais de quatrocentas páginas, mas apenas onze capítulos, alguns com mais de trinta páginas! E para aqueles que estão receosos com essa característica do livro – e devo admitir que também fiquei quando recebi meu exemplar – eu digo para não ficarem, pois as tramas, narradas em terceira pessoa, são tão interligadas e orquestradas que é praticamente impossível interromper a leitura. Belgravia é um folhetim e cada capítulo é um episódio, tanto que, inicialmente, os capítulos foram lançados de forma avulsa e os leitores precisavam esperar o próximo capítulo ser lançado para dar continuidade a historia.

A área onde a maior parte da história é ambientada realmente existe e é uma das mais importantes de Londres, estando perto, por exemplo, do Palácio de Buckingham.


Eu me permiti omitir algumas informações no pouco que disse sobre a história, cortesia que algumas resenhas não me deram, pois pecaram ao revelar demais. Em outras palavras, eu já sabia qual era o segredo e outras coisinhas que eu preferia ter descoberto com a leitura. Felizmente, esse detalhe não estragou a leitura, pois o mais importante é o desenvolvimento de toda a trama.

E os personagens? Vocês podem estar pensando que James Trenchard é um homem ruim por conta dessa vontade interminável de ser alguém importante, mas seu maior pecado é justamente esse, querer ser mais do que ele é. Já Anne é uma pessoa muito centrada, e apesar de James não ser tão importante quanto gostaria, sua nova posição impõe que Anne frequente bailes, chás da tarde e jantares, coisas que ela facilmente dispensaria, pois sabe que só é convidada por obrigação. Olíver, o filho mais novo dos Trenchard, passa a ter função quando a história dá o salto de vinte e cinco anos. Ele cresceu e tornou-se um homem muito frustrado, que sofre com a pouca atenção que recebe do pai. Oliver é casado com Susan, uma personagem muito interessante, apesar de não valer o chão que pisa. Ela flerta com muitos homens e chega a ter um caso com um outro personagem tão detestável quanto ela. Também após a passagem de tempo, nós conhecemos os Brockenhurst, uma família que representa a aristocracia londrina em sua mais pura essência, mas que precisará rever seus conceitos muito antes do que eles imaginam.

Com exceção de Anne, todos os outros personagens são bem ambíguos. Não temos mocinhos e vilões, temos seres humanos que às vezes agem por ímpeto, no calor do momento, e que fazem coisas sem pensar nas consequências. Mas essas consequências, mais cedo ou mais tarde, voltam para os assombrar.

Em Belgravia nós acompanhamos as atitudes que as pessoas são capazes de tomar para conseguirem o que querem. Dos sete pecados capitais, só a gula não está presente. Ira, avareza, inveja, luxúria, preguiça e vaidade, são esses os fatores que movimentam essa incrível história!

E o romance? Não tem romance? Sim, tem, mas ele não é tão importante na história. É uma subtrama interessante que serve para descansar um pouco os desdobramentos da trama central.

A edição da Intrínseca está belíssima. A capa é um primor, com aspecto emborrachado e letras brilhantes. O livro tem orelhas enormes () e o interior da capa é dourado, deixando a edição com uma cara luxuosa. Encontrei alguns erros de revisão, mas nada muito grave. Ao final da leitura me peguei de coração apertado, pois tinha chegado a hora de dar adeus àqueles personagens maravilhosos. A história é fechada, mas senti que Julian terminou o livro dando brecha para mais. Espero não estar enganada!

Observação: Conteúdo postado quando a plataforma do blog ainda era WordPress. Com a mudança, todos os comentários foram perdidos.

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