23 de setembro de 2018

Resenha | A Baronesa Descalça - Chiara Ciodarot


eBook cedido em parceria com a autora.

Autora: Chiara Ciodarot

Série: O Clube dos Devassos #1

Número de páginas: 346

Ano: 2018

Editora: Reino

Skoob: AQUI

Compre: Amazon
Sinopse: Vale do Paraíba, 1872.

Saraus, bailes, rapazes, cavalgar e defender a abolição da escravatura, são estes os gostos da bela Amaia. Mas tudo parece perder sentido quando seus pais morrem e deixam nas suas mãos uma fazenda de café e um testamento que a impede de alforriar os escravos. Sem saber como administrar uma fazenda e se afundando em dívidas, ela encontra apenas uma solução: se casar. Todo e qualquer solteiro ou viúvo se torna um pretendente em potencial. Ou quase todo.

Eduardo Montenegro não é pretendente para moça de família. Fundador do Clube dos Devassos, o misterioso Montenegro não pretende se casar, mas isso não o impede tentar levar Amaia para cama. Enquanto tenta manter a sua integridade física e emocional, Amaia arruma um pretendente inesperado. Será que ela vai conseguir levar adiante o seu plano de salvar a fazenda e os escravos, ou será que a sua atração por Montenegro será maior? O famoso devasso acabará seduzido pelos encantos da charmosa abolicionista e a pedirá em casamento antes que ela se case com outro?


Diante do seu próprio reflexo, Amaia não se reconhecia. ... Queria chorar, mas não havia tempo para isso. Chorar era um luxo que não fazia mais parte da sua realidade e ela precisava trabalhar.

Amaia Carvalho é uma jovem de 23 anos que sempre teve o mundo aos seus pés. Dona de uma beleza exótica, ela atrai olhares por onde passa e não tem vergonha de chamar a atenção de inúmeros admiradores, muito pelo contrário. Ainda solteira, ela é quase vista como uma solteirona por alguns membros de seu círculo social, entretanto, ela sabe que basta um estalar de seus dedos para que um casamento seja providenciado.

Com sua personalidade super forte e autêntica, Amaia é conversa constante nas rodas de fofoca das matronas e senhoritas que não veem com bons olhos o seu comportamento. Elas julgam tudo em Amaia, desde sua exuberância ao seu viés abolicionista.

Como gosta muito de se divertir, Amaia é presença certa nos bailes e saraus do Vale do Paraíba, e é exatamente em um deles, no noivado de Caetana, sua melhor amiga, com Roberto Canto e Melo, que a jovem conhece Eduardo Montenegro. A primeira interação dos dois é repleta de animosidade e troca de insultos. Para Amaia, Montenegro não passa de mais um exemplar do espécime masculino predominante no Vale: um esnobe escravocrata sem coração.

Era mais um daqueles malditos escravocratas que só se importavam com os lucros. Ninguém era decente naquelas terras. Ah, a vontade de chorar de raiva era maior do que a sua incapacidade de fazer algo pelos escravos. Teria de dar um jeito. Arrumar alguma forma. Mesmo que o pai a chicoteasse, ela não poderia parar de exigir a libertação dos escravos e provar a homens como Montenegro que escravizar seres humanos era errado.

Porém, Amaia não poderia estar mais enganada. Montenegro criou um personagem para ocultar suas verdadeiras intenções. Ele é fundador do Clube dos Devassos, visto por todos como um clube de cavalheiros altamente exclusivo e com intenções nada respeitáveis, mas que não passa de uma fachada; por trás, há a verdade, que é o fato deste clube reunir abolicionistas, que lutam em segredo pela libertação dos escravos.

Amaia ainda está remoendo o ódio instantâneo por Eduardo Montenegro quando seus pais, Gracílio e Otávia, sofrem um terrível acidente. Amaia fica sem chão, mas não tem nem tempo de viver todas as fases do luto antes do primeiro credor bater à sua porta. Com a orfandade, Amaia descobre que a situação financeira da família ia de mal a pior, e que a fazenda Santa Bárbara, seu lar, estava coberta de dívidas.

A jovem começa a lidar com os cobradores sozinha, já que sua irmã, Cora, não demonstra a mínima vontade de ajudá-la. Cora, aliás, odeia Amaia e se ressente pela beleza e popularidade da irmã. Ela quer ir embora da Santa Bárbara para se juntar a Singeon, rapaz com quem se corresponde há anos e com quem pretende se casar.

Amaia começa a ficar ainda mais mal falada, já que se encontra sozinha com os credores para tentar negociar as dívidas deixadas por seu pai. Quando Caetana sugere que ela se case, Amaia logo rejeita a ideia, mas ao se lembrar que o dinheiro restante só seria capaz de pagar um dote, ela muda de opinião. Com seu casamento, seria o seu marido quem receberia o dinheiro, não o de Cora, e ela poderia convencê-lo a aplicar o dinheiro na Santa Bárbara.


A busca de Amaia por um marido, entretanto, mostra-se infrutífera. Cavalheiros que antes faziam de tudo para ter um minuto de sua atenção lhe viram as costas e ela fica sem saber o que fazer. Montenegro percebe que a jovem está em uma situação delicada, mas ela é orgulhosa demais para aceitar ajuda. Ele poderia lhe propor casamento caso o enlace matrimonial estivesse em seus planos, mas não está. Ele tinha um objetivo no Vale do Paraíba e distrações não eram bem-vindas. Todavia, seu desejo por Amaia vai ficando cada vez mais forte e ele começa a não saber como lidar com ele.

— O senhor não sabe quem sou. Não tem a menor ideia.
— Em momento algum você pensou no pobre rapaz? No que ele pode estar sentindo por você? Acha que homens são joguetes?
— Joguetes? Os homens? Ao contrário. — O rosto dela se encheu de fúria e, desta vez, os corpos estavam a pouca distância, mas em lados opostos. — Vocês são manipuladores Fazem de nós, mulheres, o que querem. Uma palavra de vocês e nossa vida cai por terra. Que poder nós temos senão nossos atributos? 

Sem saída, Amaia acaba tomando uma atitude drástica e Montenegro observa enquanto ela se afunda. Os dois, no fundo, se gostam e descobrem isso em meio ao caos pessoal em que se encontram. A pergunta que fica é se há futuro para quem não sabe lidar com o presente.

••••••••••

Acho que todo mundo já deve saber a diferença entre um romance histórico e um romance de época, não é mesmo? Porém, não custa nada lembrar. A diferença é basicamente o compromisso com os fatos históricos da época em que a história é ambientada. Os de época não têm compromisso com a realidade e a base da história é somente a ambientação e os costumes; os históricos, por sua vez, possuem em seu enredo tramas onde acontecimentos reais têm grande relevância na narrativa. É comum, por exemplo, vermos a Batalha de Waterloo sendo abordada nos romances históricos ambientados na Europa. Já em romances históricos ambientados no Brasil, é o período da escravidão o fato histórico mais utilizado.

A Baronesa Descalça flerta com os dois gêneros, mas eu esperava encontrar um enredo onde a escravidão e suas mazelas tivesse mais destaque. Eu também esperava encontrar personagens revolucionários, que lutariam contra um dos períodos mais vergonhosos de nossa história, mas não foi bem assim. Amaia e Montenegro são bons personagens, eles de fato são abolicionistas e assim que a história começou eu adorei os dois, mas ao longo da narrativa houve um certo declínio em seus potenciais. Há de se levar em consideração que este é apenas o primeiro volume de uma série e que as tramas aqui iniciadas serão desenvolvidas ao longo das demais continuações, mas senti falta de um maior desenvolvimento das tramas paralelas, tramas que tinham grande relevância e que, para mim, com ênfase no para mim, eram muito mais interessantes e relevantes que a trama de Amaia.

Falando na personagem, foi ela meu outro calcanhar de Aquiles em relação à história. Se por um lado eu adorei seu empoderamento em uma época onde essa palavra nem sonhava em existir, por outro não gostei de muitas de suas atitudes. Amaia é bonita e tem noção do poder de sua beleza. Ela tem todo o direito de gostar do efeito que tem nos homens, quem não gosta de ser notada? Mas à medida que sua situação vai ficando mais periclitante, ela começa a utilizar seus atributos de uma maneira com a qual não simpatizei. Juro que levei em consideração o fato dela estar desesperada, afinal, a perda da fazenda era iminente, mas eu não acho que vale tudo em nome do bem maior.

A seu favor, Amaia tem sua força e sua coragem. É admirável ver uma jovem lutar por algo com tanto afinco. Atitudes questionáveis à parte, Amaia é uma jovem com ideais bem definidos e que ojeriza a escravidão. Ela também aprende a lidar com seu orgulho, já que sua nova posição exige que ela abaixe a cabeça em situações que antes encararia de queixo erguido. Montenegro, por sua vez, é um mistério. Sua personalidade foi bem condizente com seu propósito, o que achei muito coerente. Por conta de seu passado conturbado, ele tornou-se um homem duro, sisudo, porém, íntegro. Simpatizei muito mais com ele do que com Amaia.

A dinâmica dos dois é bacana, não muito diferente do que estamos acostumados a encontrar no gênero. Eles têm bons e ácidos diálogos e a tensão sexual está sempre presente, porém, não se sobrepõe àquilo que realmente importa.


Os personagens secundários são interessantes e podemos encontrar diversos tipos de personalidades, o que achei ótimo! Destaco Caetana e Roberto, que, por mais que apareçam pouco, interagem de uma maneira interessante com os protagonistas. E por falar em protagonistas, serão eles o casal principal do próximo volume da série e ao final desta história há um bom gancho para a trama dos dois. Chiara conseguiu criar personagens bem humanos, onde não há alguém de fato mau, e sim pessoas cheias de defeitos, preconceitos e ideias tortas, pessoas que se acham melhores que outras somente por aquilo que possuem.

Eu li o eBook e o mesmo está bem diagramado. Alguns errinhos passaram na revisão, mas a qualidade do texto é bem satisfatória. A autora ambientou a história muito bem, utilizou termos da época e utilizou uma certa formalidade bem-vinda ao texto, condizente com a época em que a história se desenvolve. A capa sofreu uma alteração recentemente, a antiga é a que aparece na foto que eu tirei. Eu prefiro a nova, e vocês? 😃

Agora torço para que no segundo volume as tramas aqui iniciadas tenham o desenvolvimento merecido. Queria menos época e mais história, menos romance e mais ação. Gostaria principalmente de acompanhar a dinâmica interna do Clube dos Devassos, que neste volume ficou bem apagadinho.

É difícil apontar ressalvas em uma história, pois as pessoas costumam internalizar nossa opinião e não é bem assim que a coisa tem que funcionar. Eu, Tamires, estava esperando algo diferente, mas isso não significa que a história é ruim e que eu não gostei dela, apenas que certos aspectos da mesma não me agradaram. Continuarei lendo a série, pois tenho certeza que ainda vou me surpreender. As Inconveniências de Um Casamento já foi lançado e em breve trarei a resenha para vocês! 💜


18 comentários

  1. Oi Tami!
    Eu não conhecia esse livro. Confesso q desanimei qnd vc falou q é uma série, tenho tantas inacabadas XD
    Além disso, não sei se gostei tanto da trama, apesar de positivamente envolver a escravidão no Brasil, outros elementos q vc citou acho q n iam me agradar na leitura.
    Ps: achei a capa linda!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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  2. Oiii Tami

    Sei bem como é essa sensação de esperar algo diferente. Tb acho que essa ambientação poderia ser melhor aproveitada, esse período da escravidão e do Brasil Império tem tanta coisa pra contar e retratar, dava pra prender muito o leitor. Espero que o segundo volume te conquiste e corresponda às suas expectativas.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  3. Oi Tami, tudo bem? Olhando a capa eu não esperava nada histórico, sendo bem sincera rsrrs curti a premissa e vc sabe que amo livros do gênero, talvez eu leia! <3

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Olá, Tamires.
    Eu fiquei bastante interessada no livro e quando chegou ali no final da postagem cliquei para saber mais do livro e não é que vi que tenho ele no Kindle? Mas não sei quando vou conseguir ler porque estou dando preferência para livros físicos que estão parados na minha estante a mais tempo. Achei que teria mais foco na escravidão também, mas acho que mesmo assim eu vou gostar dele.

    Prefácio

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  5. Oi, Tami
    Eu estou reparando que muitas autoras que lançam seu primeiro livro em e-book pecam no desenvolvimento sendo que tem um ótimo enredo nas mãos. É uma pena porque a história tinha grande potencial, mas pelo visto não rolou. Eu acho que me simpatizaria com a Amaia de todo modo, só me incomoda esse nome dela kkkk leio toda hora errado.
    Beijo
    http://www.suddenlythings.com/

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    1. Rolou sim, só não como eu esperava. Jura que não gosta? Acho o nome dela super original e bonito.

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  6. Oi, Tami!

    Pela capa, parece que a história possui uma inclinação mais pro lado de época mesmo do que histórico, mas achei bacana a mesclagem que a autora conseguiu montar, mesmo focando mais em um dos lados. Gostei da premissa da obra, vou marcar já nos desejados!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com

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  7. Oi Tami! Eu gostei da premissa, acho que comigo vai funcionar bem. Eu prefiro mais época do que história e achei a personalidade do casal bem interessante, no caso dele, intrigante. Dica anotada. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  8. Olá,
    Nossa, sobre essa protagonista #quiautoestimadapoha.
    Tenho esse e-book no Kindle, não sabia das mudanças, vou colocar pra atualizar. Achei legal que ela fica no meio, mas observo que parte das autoras preferem se esquivar da escravidão. Belo exemplo, é Perdida né.

    até mais,
    Nana e Leticia - Canto Cultzíneo

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    1. A Carina foi bem criticada na época, mas lembro que ela falou que não queria retratar um período tão triste em seu livro. Não a julgo.

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  9. Oi Tami,

    Acho que vou gostar dessa história, apesar das ressalvas sinto que o enredo vai me cativar.
    Gosto muito quando autores exploram bem a ambientação e histórias do passado e espero não me decepcionar com esse quesito.
    Bjs e uma boa semana!
    Diário dos Livros
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